Onde nos encontramos?

Onde nos encontramos? Não no tempo, mas no espaço. Onde nos encontramos para nos conhecermos uns aos outros? Este post é sobre networking mas não entre máquinas, networking entre pessoas.

No podcast Datanauts #23 dos packetpushers.net fiquei espantado com a quantidade de eventos que se realizam regularmente nos Estados Unidos. Ia enumerar aqui alguns mas poderão ver no link.

Pus-me então a perguntar:

E nós?

Para que fique claro à partida, não penso ainda nos grande eventos de fabricantes (embora saiba que já foram organizados alguns por cá) nem das feiras de “alto nível” e negócios como FILDA e ANGOTIC. Penso sim nas reuniões de grupos de técnicos e engenheiros com interesses comuns: redes, Linux, programação, Python, Windows Server… Pequenos eventos muito à semelhança dos “grupos de estudo” do tempo das carteiras. Uma ou duas apresentações de 20-40 minutos, seguidas de perguntas, respostas, debate e acima de tudo crescimento não interessando se o apresentador é um mestre com 20 anos de experiência ou de um finalista fresquinho da universidade.

Um exemplo deste tipo de encontros é o CAST (Comunidade Angolana de Segurança e Tecnologia). Em 2012/2013, o grupo que começou com o empurrão de 3-5 pessoas reunia-se uma vez por mês no escritório da Integrated Solutions que gentilmente cedia uma sala, projector, tela e até financiava uns petisquinhos. Rapidamente o grupo cresceu não só nos eventos presenciais como online onde na rede social criada estavam disponíveis um forum, blog e eram partilhadas fotografias e slides das apresentações. Infelizmente depois de alguns eventos o grupo “adormeceu” voltando a acordar em Fevereiro deste ano com o primeiro (re)encontro. O último encontro foi há em 28/Abril/2016 na Mediateca de Luanda.

Enquanto funcionário de um provedor de internet também tive a chance de participar em alguns encontros técnicos da AAPSI (Associação Angolana de Provedores de Serviços de Internet). O objectivo destes encontros era diferente, resolver problemas técnicos e propor melhorias, mas os debates foram produtivos e o networking dos membros foi o melhor que de lá saía.

E há mais?

Há. Menosfios.com reporta regularmente sobre o Meet.us organizado pela Angodev, uma comunidade de programadores angolanos. Realizaram-se já 2 encontros. O último foi em Janeiro de 2015 e infelizmente o site, facebook e twitter da Angodev não mostram grande actividade. Haverá um encontro este ano? Não sei.

Um outro evento de que tomei conhecimento foi o Startup Dojo, até agora com duas edições, uma delas a edição especial de Março/2016… só mulheres! Este evento não é tão ligado ao lado técnico e é mais orientado para o “empreendedorismo digital”.

Mas porquê?

Porquê que não há mais desses eventos? Porquê que o conhecimento fica “enlatado” em grupos fechados?

  1. Não dá dinheiro! Esta é, na minha opinião, a causa número um da falta destes grupos. Vivemos numa sociedade focada no dinheiro, no biolo, no próximo “biznu”, que “vai nos laifar”. Qualquer coisa que nos ocupe tempo fora do horário de trabalho, só se for para dar mais dinheiro.
  2. Falta de tempo: temos que trabalhar no mínimo as 8 horas por dia obrigatórias. Depois ainda há as 2-4h “extra” que muitos de nós trabalha, sem pagamento adicional e em muitas empresas é implícito. Fechando a sandwich antes e depois do trabalho há o trânsito. De 2 a 5h por dia em média sentados num carro e até 8h nas piores alturas. Meetup? Aprender? Apresentar? Nem pensar. Quero cama!
  3. Stress: o dia-a-dia de quem trabalha em IT/telecomunicações não é fácil em Angola ou em qualquer parte do mundo. Mas em Angola o dia-a-dia é (só um bocadinho) pior pela instabilidade do básico, que em outras partes do mundo é garantido. Água, energia eléctrica, transportes públicos, sistema de saúde, educação… são alguns dos elementos que estão constantemente no nosso subconsciente e sem querermos nos moem ao longo do dia. Quem nunca se perguntou: “Por que estou tão cansado se não fiz nada todo o dia?”
  4. Desvalorização do angolano: este ponto também é bem real de acordo com algumas pessoas com quem conversei. Ainda temos muitos angolanos que só acreditam no estrangeiro. Que se for um angolano a fazer apresentações não tem valor e não sabe do que fala. No entanto acho que este complexo tem estado a reduzir e “graças” à situação em que o país se encontra os angolanos terão mais chances de mostrar o que realmente valem.
  5. Sentimento de inferioridade: um técnico júnior poderá sentir-se inferior e incapaz ao lado de “mentes brilhantes” especialmente se está regularmente em situações em que as suas contribuições são ignoradas e rebaixadas desincentivando qualquer contribuição futura.
    Os encontros deste género devem correr sempre num ambiente em que os “mestres” mostram o que sabem mas as palavras dos “putos” não sejam nunca consideradas absurdas.
  6. Falta de paixão: é verdade e nós sabemos. Há pessoas que trabalham onde trabalham porque têm que trabalhar. Sem paixão pelo que se faz não há vontade de partilhar e aprender. A menos que haja dinheiro envolvido.

 

É hora da comunidade técnica angolana se encontrar, conhecer e crescer junta.

10 Comments Onde nos encontramos?

      1. Wilson da Silva

        MP, para quando um encontro… nem que for informal. Será um passo. Mauro Silva vamos fazer acontecer?
        Tenho duas horas disponíveis no final do dia as sextas e aos sábados de manhã.

  1. Angelo Alfredo

    Fenomenal Mario….

    Bom saber que vozes se levantam para que se forme de facto um Onjamgo de TIC nosso.

    Dos vários motivos vigorados no sector salientei a tua visão na desacreditação da mão de obra angolana pela expatriada. A falta de ideias conjugadas e a maior fatalidade disso.

    Vamos la unir esforços para que se não para nos, pelomenos deixarmos um melhor legado para os nossos miúdos.

    Salute

    ANGELO ALFREDO

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    1. Mario Pinho

      Angelo obrigado.
      É preciso seguir-se os bons exemplos. Se com o resto do mundo é agradável e dá certo, connosco tem que acontecer o mesmo.

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  2. Hélder Gomes

    Puto bela reflexão, ainda há dias tive a pensar em propor cenas do género no nosso grupo do whatsApp, temos que começar a fazer coisas do género mesmo os que anseiam em conseguir kumbo através da implementação de projectos de micro ou pequenas empresas essa é bela forma de se fazer conhecer mas, é importante que em primeiro lugar as pessoas estejam interessadas no saber e partilha do conhecimento e não outro tipo de desejos e querem usar estas plataformas como trampolim… Parabéns puto… Gostei….

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  3. Kito Silva

    Interessante.
    Que não fiques por esta análise por falta de financiamento !
    Bem haja

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